domingo, 19 de fevereiro de 2012

Um pouco de Cecília Meireles

"Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada."

Só por hoje


Os retalhos de tudo que se passou eu costurei cuidadosamente, pois se sofri é porque algo aprendi e levarei comigo cada palavra por entre versos que eu muitas vezes ignorei. Meus passos lentos, sob escombros de uma vida cheia de dúvidas e pedras valeram a pena. A tempestade passou e levou embora a solidão que me fez amadurecer.
O mar aberto e a brisa leve desse capítulo me entorpeceram. O cenário poético que respiro diariamente ainda é para muitos um mistério, já para mim é o segredo que conecta a minha alma ao mundo. Logo eu que não economizo tempo e tão pouco consigo aquietar o coração, só por hoje vou ancorar meus planos e assistir a vida passar por entre os dedos. Quero sentir o vento sussurrar saudade ao pé do ouvido e desencaixotar meu espírito. Vou me permitir observar detalhes como nunca ousei antes e assim talvez me reconheça através de mim.

"Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"
Cecília Meireles

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Princípio e meio sem fim


Como quem boceja estrelas
por entre olhares:
redesenhei constelações.
O tempo é indeciso,
passa quase despercebido,
parece que não passa,
mas passa.
Uma fotografia picada no chão,
aquele que escapara de seu destino
despejando lágrimas de crocodilo,
transcendendo fogo e paixão.
Rabisquei cada detalhe
enquanto a natureza sussurrava versos
e meu avesso me conduzia ao inverso.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Um pouco de Caio Abreu

"Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido"

Um pouco de Allen Ginsberg

"Arte é ilusão, pois eu não ajo

Fico ou Parto - com constante alegria
Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados
Santa prece para o conhecimento ou puro fato.

Então enceno a esperança de que posso criar

Um mundo vivo em torno de meus olhos mortais
Um triste paraíso é o que imito
E anjos caídos cujas asas perdidas são suspiros.

Neste estado não mundano em que me movimento

Minha Fe e Esperança são diabólica moeda corrente
Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos
Em torno de mim, e troco minha alma por amor."


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Livro (Parte II)


Ela então acordou de um sonho que fizera pensar no amor como nunca ousou antes. Suas mãos tremulas, ansiosas, procuraram um lápis e um papel para gravar as idéias que dali em diante mudariam tudo. “O amor? Sentimento quase utópico que alimenta corações machucados...” Subitamente perdeu seu raciocínio, esqueceu tudo que pairava em sua mente. Foi até a cozinha, acendeu as luzes, pegou uma xícara de café e suspirou profundamente. Ela então olhou para a geladeira, onde havia uma fotografia, que deveria estar no lixo junto com as outras coisas daquele que a tempos não penetrava em seus pensamentos. Fixou bem os olhos na imagem e entendeu por que esquecera o sonho minutos atrás: porque o amor não existe.

Parou de remar a muito tempo, pulou fora do barco sem deixar rastros


 (...)Desisti, foi súbito eu sei, desisti antes de pensar em partir, sem perceber que eu já não estava mais ali, mas você desistiu antes de mim, desistiu no instante em que meus planos passaram a ser diferentes dos seus, naquela noite em que jogamos tudo pro alto e ao invés de pegar a minha mão você hesitou, foi aí que deixou de remar, antes mesmo do barco sair do cais.
Claro que eu faria tudo outra vez, mas em outros tempos, afinal, uma história doce que nasceu ao acaso não passa despercebida nem pode ser esquecida. Hoje eu me vejo diferente daquela garota perdida que encontrou nos seus braços motivos para acreditar que o amor existia. O amor que eu sonhei por anos é utópico, só existe na minha imaginação. Agora eu percebo que realmente foi apenas um sonho bom, contudo lembre-se que eu te amei, do meu jeito, naquele instante em que quis parar o tempo, desde o primeiro olhar até o último beijo, enquanto eu respirei seus encantos. (...)A realidade nos esperava o tempo todo, cedo ou tarde teríamos que voltar para casa.

Fotografia de Sérgio Rodrigo